“Ultimamente anda deprimido: a mulher deixou-o e pediu o divórcio por causa de uma discussão sem importância. Não entende que uma discussãozeca acabe com um casamento de dezanove anos. Ainda por cima um problema de caracacá: que culpa tem ele da fragilidade da esposa:
- Mal lhe rocei partiu logo os dois braços
e isto numa surpresa sincera, a espalmar-se de inocência contra o peito:
- Pela felicidade dos meus filhos que mal lhe rocei, senhor doutor.”
António Lobo Antunes, crónica de 10 de Dezembro 2009, Revista Visão
Na última edição, este jornal noticiava que, em sessão da assembleia municipal do Barreiro, a CDU tinha chumbado uma proposta do PS para criação de um gabinete de apoio às vítimas de violência doméstica. A jornalista citava o Presidente da Câmara que teria dito existir uma estrutura desta natureza na Baixa da Banheira, concelho da Moita, a qual, pela sua proximidade, poderia dar apoio às vítimas da nossa terra.
Os homens e mulheres agredidos e humilhados nas suas casas pelos seus cônjuges, companheiros e/ou familiares, raramente podem ou querem pedir qualquer auxílio. E quando assumem a sua condição de vítima, embaraçados pela vergonha, temerosos pelas ameaças, só pensam em fugir sem saber para onde, nem como. Por vezes morrem.
Poder-se-á sempre olhar para o lado, ou esperar que outros (p.ex. a Moita) actuem. Afinal, quando chegarem as comemorações do 8 de Março, do 25 de Novembro ou do 10 de Dezembro, dir-se-á que a violação dos direitos humanos no Barreiro é, obviamente, culpa do Governo. A autarquia mal lhe roçou.


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