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Opinião

2010-07-12, Jorge Morais
Dar de beber quem tem sede

“Dar de beber a quem tem sede” é a segunda Obra material das Misericórdias. Está, naturalmente, associada à primeira (“dar de comer a quem tem fome”), já analisada nestas páginas. Este mandamento caritativo ganha importância autónoma numa época em que a água se tornou um bem valorizado pela consciência contemporânea da saúde individual e pública e do equilíbrio ecológico – mas o seu lugar nas preocupações misericordiosas vem já da viragem do século XV para o século XVI, quando em Portugal floresceram as primeiras Santas Casas.
 

A história da relação do Homem medieval com a água é uma crónica de horrores e ignorância. Embora sacralizada nas abluções e aspersões litúrgicas, a água só moderadamente entrava no dia-a-dia das populações europeias, apartadas havia muito dos cuidados de saúde e higiene que tinham caracterizado as civilizações clássicas (com seus banhos, seus vapores e suas termas).
 

Entre o povo, a água servia sobretudo para a culinária, quanto bastasse, e para matar a simples sede. Nas classes altas, usava-se ainda para purificar (quase simbolicamente) a ponta dos dedos, antes das refeições, ou para refrigério sumário das faces e têmporas de damas afogueadas. O seu uso como bem de higiene e saúde era singelamente desprezado.

Dieta

Tanto entre nobres como entre plebeus, o banho era então um sacrifício a que o europeu se submetia muito poucas vezes no ano – duas, três, quase sempre na Primavera, quando o calor começava a apertar e os maus odores se tornavam insuportáveis. Banhava-se então, com arrepios e esgares de sofrimento, o Pater Familias, e depois dele, na mesma água, as outras pessoas da casa.


Maio tornou-se o mês dos casamentos, pois era então que os noivos tomavam o seu banho cerimonial, com donzela e mancebo apresentando-se, cheirosos de flores e frescura, no altar da eternidade. Até os abastados freires da Abadia de Cluny resumiam a desinfecção monástica a um banho antes da Páscoa e outro antes do Natal. Se um humano dos dias de hoje, com os seus hábitos de duche diário, comida desinfectada, máquinas de lavar e sanitários generalizados, pudesse fazer uma viagem no tempo e encontrar-se instantaneamente na sociedade medieval, morreria de mau cheiro.
 

O escasso uso da água como elemento purificador era igual nos campos e nas cidades. Aqui, porém, a acumulação demográfica criava problemas agravados. No “numeramento das gentes do Reino”, mandado fazer por D. João III em 1527, a cidade de Lisboa registava já 13 mil habitantes. Não existindo canalização e estando longe as fontes naturais, a água era acarretada de chafarizes e poços, com sacrifício e incómodos, e depois conservada nas casas até quase estagnar.
 

O sistema rudimentar de esgotos e escoamentos chamava doenças e contágios que só o uso abundante de água fluente poderia diminuir – e essa fluência, simplesmente, não existia. Por fim, solos contaminados pelas fossas de dejectos transmitiam aos poços a peçonha de novas doenças, provocando infecções fatais e, não raro, a morte.
 

A mesma escassez de uso da água prolongava-se nas lavagens das casas (já de si empestadas, muitas vezes, pelo convívio com vacas e um sortido de animais de uso ou estimação) e do vestuário pessoal (tão caro que o pobre não tinha, por regra, mais do que a muda que trazia no corpo). O lar medieval e tardo-medieval é um jardim zoológico de percevejos, piolhos, pulgas, ratos, cães sarnosos e gado.


A quase ausência da água potável no quotidiano medieval é, por tudo isto, um dos principais factores da elevada taxa de mortalidade dessa era. Uma em cada três crianças morria antes de completar um ano de vida. Só metade dos nascituros chegava à idade adulta. 


A vida doméstica portuguesa dos séculos XIV e XV acompanha, aliás, o padrão europeu: ausência de higiene, de ventilação, de aquecimento, de lugares de arrumo, de privacidade. O chão de terra era coberto de palha e só em caso de doença o borrifavam com uma pouca de água choca. Os contágios mórbidos eram frequentes.


A dieta, como já vimos num artigo anterior, resumia-se a minudências de reduzido valor alimentício. Anote-se que 60 por cento da ingestão calórica média provinha dos cereais; 15 por cento das bebidas, com destaque para o vinho; e apenas 25 por cento de outras fontes, como o peixe ou a gordura vegetal ou animal. E também neste capítulo a água tinha um papel subalterno: não se conhecia então a necessidade da sua ingestão abundante como nutriente e auxiliar das funções do corpo.

Pestes

Este quadro era naturalmente favorável à proliferação das doenças, que os médicos combatiam com estranhas combinações de sangrias, ervas inócuas e superstições. No receituário corrente entravam infusões de azedas, pedras moídas, emplastros de baba de sapo e purgantes com olhos de galo velho boiando à superfície. Em casos clínicos especiais, cornos de gamo eram reduzidos a pó para entrarem na composição de mezinhas pueris. Um dos remédios mais procurados era o “óleo de serpente”, que chegou aos nossos dias sob a rústica designação de “banha da cobra” (agora numa loja chinesa perto de si).


Grandes alterações climáticas tinham marcado os séculos XIII e XIV, provocando uma profunda crise no sector agrícola e uma procura crescente dos grandes centros urbanos. Por fim, a Peste Negra deflagrou na Europa Meridional, em 1346, e estendeu-se a grande parte do continente, às ilhas britânicas e à Escandinávia, num movimento circular de razia que não poupou a Península Ibérica.
 

Em Portugal, onde chegou em força dois anos depois, dizimou pelo menos um terço da população, precipitando a revolução da nova nobreza e da burguesia emergente, entre 1383 e 1385. Em seis anos, a Peste Negra tinha já ceifado cinquenta milhões de europeus. A cidade de Florença foi uma das mais atingidas – e Bocaccio deixou no Decameron uma memória minuciosa das aflições desses dias.
 

Em algumas regiões da Europa central, a peste estimulou medidas profiláticas que depois se mantiveram nas culturas locais. Em Nuremberga, por exemplo, as ruas foram pavimentadas, a limpeza diária da cidade tornada obrigatória e os banhos privados favorecidos por legislação laboral protectora. A água tornou-se aí um bem estimado, com reflexos visíveis nos altos níveis de saúde pública.
 

Na Europa meridional, contudo, pouco se alterou. Mais de um século depois, em 1569, um novo surto de peste matou em Lisboa 60 mil pessoas, à razão de mais de meio milhar por dia. Nesse preciso ano, D. Sebastião autorizava a construção da Casa e da Igreja da Irmandade da Misericórdia do Barreiro, terra que muito lisboeta demandava então para fugir ao contágio.
 

Nem o intenso intercâmbio com outros povos, ao longo dos séculos XIV, XV e XVI, tinha despertado as cidades portuguesas (sequer as costeiras) para os altos perigos das epidemias e para a necessidade de uma profilaxia radical.

Liturgia

Quando, em 1498, a Rainha-Viúva D. Leonor funda a primeira Misericórdia, Portugal debate-se ainda com um grave problema de abastecimento de água potável nas grandes urbes. Assim, entre os deveres de Misericórdia estabelecidos no primeiro “Compromisso” da Santa Casa de Lisboa, figura (no 5º lugar da hierarquia) o de “daar de beber aos que ham sede”.
 

Este mandamento misericordioso contribuirá fortemente para a abertura ou purificação de muitos poços e chafarizes na cidade e, depois, pelo país. O facto de ter passado de 5ª para 2ª Obra, ao longo de cinco séculos, só sublinha a importância que a água foi ganhando nas preocupações gerais com a saúde do corpo e a saúde pública.
 

A doutrina da água e da sede, como Obra de Misericórdia e como alegoria das formulações salvíficas, tem lugar de relevo na Tradição. Na cultura judaica, ela acompanha desde o início as lutas da Humanidade: “Todos os poços que tinham sido abertos pelos escravos de Abraão foram obstruídos pelos filisteus, que os encheram de terra” (Gen., 26:15).


A dádiva da água é invariavelmente associada à bondade divina: “Baterás no rochedo e dele jorrará água; então, o povo poderá beber” (Ex., 17:6); “Não sentireis vento nem vereis chuva; e, contudo, este vale encher-se-á de água e dela bebereis vós, o vosso exército e os vossos animais” (II Reis, 3:17); “Eu, o Deus de Israel, não vos abandonarei; farei brotar águas nas alturas escalvadas e fontes no fundo dos vales; transformarei o deserto num açude e a terra árida em arroios de água” (Is., 41:17).
 

Contra o egoísmo do homem vil que “não deu água ao sedento e recusou o pão ao esfomeado” (Job, 22:7), o Antigo e o Novo Testamentos ensinam que a boa acção tem retorno: “Se o teu inimigo tem sede, dá-lhe de beber, pois assim o Senhor te recompensará” (Prov., 25:21); “Quem vos der a beber um copo de água por serdes discípulos de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa” (Mc., 9:41).
 

Toda esta simbólica da água acaba por fixar-se na Liturgia cristã. Com água se asperge e se abençoa. Com água se dilui o vinho à mesa eucarística. Com água se baptiza. E com água se faz o bem: não há misericórdia completa sem a Obra de “dar de beber a quem tem sede”.

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